domingo, abril 18, 2010

Penas

"Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate."
_ Clarice Lispector.


Dirigia seu coração a 110, talvez 120 por hora. Ultrapassara a velocidade permitida tantas vezes que seus sentimentos já corriam em faixa contínua. Quantas vezes precisaria pegar a estrada até descobrir onde fica seu lar?
Não sabia para onde ir mas viajava em si mesma enquanto o vento ruidoso que entrava pela janela embaraçava seus cabelos e pensamentos. Mal sabia por onde andara durante todo aquele tempo e, enquanto a paisagem parecia se repetir no retrovisor, conversava consigo mesma como quem conversa com um desconhecido e, desesperadamente, pedia-lhe alguma opinião que a servisse de acostamento. Mas ela, que sempre percorria os caminhos mais obscuros de si, parecia saber que naquela velocidade deixa-se muita coisa para trás como borrões visuais não identificáveis.
Esperava que alguma ajuda lhe caísse do céu... Alguma luz, inspiração, resposta ou coisa que o valha, porque se sentia fraca demais para fazer a próxima conversão... sozinha.
E, do céu, veio-lhe um tiro certeiro no peito, lado esquerdo. Veio rápido pela janela aberta e num som abafado a atingiu. Penas dançaram lentamente no ar e caíram como que colocando tudo o que pairava em seu lugar.
Morrera ali mais que um pássaro. Morreram ali dois corações...

3 Comentários:

Às 19/04/2010 09:51, Blogger !. poly.prado .! disse...

não posso parar aqui, pois toda vez que paro...não consigo sair...

 
Às 19/04/2010 12:23, Blogger .: Tatiana Monteiro :. disse...

sempre.muito.bom.te.ter.por.perto
;]

 
Às 20/04/2010 14:57, Blogger Farroscal disse...

Se descobrir onde fica o freio me avise antes que também eu seja atingido no peito.

 

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